3 de setembro de 2010

Substantivos: concretos e abstratos

Por Arturo Serrano
O substantivo é o nome e tudo o que se vê e que se imagina e que  possui existência tem um nome. Se uma libélula existe, ela existe e é identificada por um nome, o significante libélula.  Sua existência é concreta, visível, podendo ser representada, fotografada. No entanto, o voo de uma libélula não é concreto, mas por ser uma ação, trata-se de um processo, de uma flutuação, de uma temporalidade, é considerado um nome abstrato. A libélula é o ser, nominado, substantivado; o seu voo, como os outros muitos voos, uma  ação de voar.  Vemos uma libélula e vemos o seu voo, mas independente do voo podemos ver a libélula; o seu voo, entretando, depende da libélula e também da ideia de voo.

De concreto e imediato, à nossa volta, os objetos, os seres, os lugares, os meios de transporte, as construções; e em escala abstrata os conceitos, os pensamentos, os sentimentos, as ações, os estados e as qualidades. Na verdade, tudo que existe é nominável e por isso tudo possui a sua designação particular, caso contrário não existiria. A existência de substantivos concretos é óbvia, o que poderia não ser óbvio é a nominação ou a substantivação de entidades ou existências não palpáveis de todo, no âmbito dos pensamentos, dos sentimentos, da abstração humana. Enfim, o abstrato é tão perceptível quanto o concreto, mas a classificação gramatical desassociará um de outro, entendendo que os substantivos concretos fazem parte da realidade física e os abstratos da realidade psíquica.

Nos termos da abstração, como nomear uma qualidade? Ser belo é uma qualidade, mas o que interessa à nossa classificação é o nome de uma qualidade ou para ser preciso: a beleza.  E como seria o nome de uma ação? Não a ação em si, mas o nome específico dessa ação, como o nome da ação de transformar: a transformação. Enfim, é correto afirmar que os substantivos abstratos têm como origem uma outra classe de palavras: sincero- sinceridade; demonstrar-demonstração; amar-amor; falar-fala; digno-dignidade.

By Adriean Van der Werff
O substantivo talvez seja a primeira classe de palavras de nossa existência, pois a começar pela criação o segundo passo é nomear a coisa criada, associando a ela nome e função. Tudo que existe e possui substância é um substantivo. Em tese, no bojo da criação, Adão e Eva foram os primeiros a darem nomes a todas as coisas: um substantivo para cada existência. A partir daí foi possível relacionar-se com o mundo à volta e, nesses termos, é muito provável que as primeiras coisas nomeadas fossem concretas e depois, sentindo e abstraindo o mundo, as entidades abstratas passassem a ter nomes: saudade, frustração, pecado. A abstração é, em linhas gerais, uma amplificação ou um tratamento diferenciado das entidades concretas. Parte da relação do homem com a natureza.

Os substantivos concretos e os substantivos abstratos são definidos a partir de suas características externas, externas ao nome - encerradas no cerne de seu sentido e de sua significação. A semântica linguística ou a visão de mundo é quem cuidará de classificar um nome em concreto ou abstrato. Nesse sentido, concretos e abstratos não são definidos por sua morfologia, mas pela sua existência real e significativa àquele que toma posse da palavra: o detentor de sua significação. A motivação é externa.

Externamente, o substantivo concreto é aquele que podemos visualizar, sentir, tocar, ouvir. Ele é direto, objetivo, denotativo e referencial. Na Matemática, quando crianças, visualimos cinco moedas e a somamos a mais três moedas, logo o que temos em nossa mão é concreto e visual: oito moedas. Essa visualização que é, em síntese, o conceito geral de concreto. Diferente, entretanto, de somarmos 5000 caixas mais 3000 caixas, essa soma é abstrata, tem-se que ter em mente um mundo criado, redimensionado, unicamente capaz de ser visto e entrevisto mentalmente. Assim também repousa a diferença entre substantivo concreto e substantivo abstrato. O substantivo concreto é aquele que podemos visualizar sem qualquer esforço mental, é instantâneo, pois sua existência é autônoma. O substantivo abstrato é, em tese, um exercício mental, de existêncial conceitual ou indireta, podendo ser em alguns momentos subjetivo.

Abstratos são derivados, geralmente de adjetivos e de verbos, sua existência depende de algo que é anterior a ele, mas possível mediante a humanização do mundo; já os concretos existem per se e não são criados a partir de um antecessor de outra classe, mas são originais, muitos deles anteriores ao próprio ser humano ou simultâneos a ele.

Substantivos Concretos:

Por Adriana Cecchi, Flickr
Objetos e coisas em geral: pedra, tijolo, pó, cimento, papel, lata, copo, xícara, tesoura, mesa, vidro, garrafa, ouro, fio, dente, pizza, perfume, aquário, água, pelo, peruca, blusa, mouse.
Seres em geral: cão, árvore, cavalo, ameba, baleia, mula-sem-cabeça, vírus, bananeira, formiga, bactéria, sapo, grama, fada, Deus, Capitu, minhoca, sanguessuga, rato, cogumelo, camarão, caranguejo.
Lugares: cidade, rua, lugarejo, roça, praça, prédio, portaria, pista, rodovia, estrada, igreja, teatro, cinema, palco, distrito, aldeia, ilha, bar, oceano, piscina.
Artefatos ou instrumentos: avião, máquina, DVD, relógio, violão, tambor, cortina, brinquedo, motor, bomba, óculos, elevador, MP3, computador, TV, microscópio.
Fenômenos da natureza: chuva, relâmpago, ventania, tempestade, neve, trovão, som, eco, furacão, tornado, terremoto. Embora os fenômenos sejam difíceis de se representar concretamente, não são considerados abstratos porque são fontes concretas de um fenômeno físico e original.

Substantivos Abstratos:

Por diegodacal, Flickr
Sentimentos: paixão, dor, amor, tédio, vontade, ira, carinho, zelo, saudade, tristeza, vaidade, loucura, raiva, anseio, solidão, tranquilidade, alegria, calor, medo, apatia.
Estados: vida, morte, saúde, sono, doença, beleza, riqueza, desemprego, calamidade, luto, prosperidade, latência.
Qualidades: honestidade, idoneidade, honra, despeito, salubridade, alteridade, coragem, inteligência, força, virtude,
Ações: plantio, semeadura, corrida, industrialização, decisão, façanha, salto, jogada, soco, tiro, batida, partida, gritaria, silêncio, trânsito, escrita.
Conceitos: filosofia, socialismo, classicismo, retórica, direito, doutrina, religião, metafísica, gravitação, liberdade, tempo.


Nem tudo, porém, é definitivo; tudo é passível de câmbio.

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