14 de abril de 2011

Sujeito Simples

Em língua portuguesa, sujeito pode ser aquele com o qual o verbo concorda, aquele a respeito do qual se faz uma declaração, aquele que, em uma oração, pratica a ação. Portanto, é evidente que para haver um sujeito deve necessariamente haver verbo, pois o sujeito só existe em orações e períodos. Alguns estudiosos ainda tentam fugir um pouco dessa definição, ampliando a noção de sujeito para tudo aquilo que esteja em destaque em uma frase, como em: Silêncio! Ali, o monte. Enfim, em casa! No entanto, para efeitos práticos, adotamos a definição de sujeito que envolve verbos.

Nessa categoria de análise sintática, há o sujeito simples e o sujeito composto. Aqui vamos abordar primeiro o sujeito simples: aquele que possui apenas um núcleo.

A seguir, no poema de Manuel Bandeira, intitulado Poema tirado de uma notícia de jornal, o sujeito é João Gostoso. Isso porque João Gostoso pratica a ação, os verbos concordam com ele, além de ser aquele a respeito do qual se declaram ou atribuem fatos. Trata-se, aqui, de um sujeito simples, pois existe apenas um núcleo: João Gostoso. Na continuação do poema, João Gostoso é retomado pelo pronome ele que também exerce a função de sujeito simples, pois o substitui. Observe a sequência de verbos e a relação deles com o sujeito João Gostoso, que vai desde uma situação corriqueira, simples, avançando até a morte como em um clímax. A ausência de pontuação também sugere à leitura a perda de ar justamente no momento em que é dito: morreu afogado. Mas isso são leituras.


Poema tirado de uma notícia de jornal
Manuel Bandeira

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. (grifos meus)

Lagoa Rodrigo de Freitas, por fabiogoveia

Doravante, é imprescindível entender que nem sempre em uma oração o sujeito vem em primeiro lugar, antecedendo ao verbo, pois muitas das vezes o sujeito aparece deslocado na frase, por isso a necessidade imediata de reconhecer primeiro o verbo para identificar o sujeito, quando os períodos forem mais complexos. Esse sujeito simples também aparece como singular ou plural, assim, se houver apenas um verbo verifique a concordância verbal com o seu sujeito. Ademais, existem, pois, verbos que não possuem sujeito: haver com sentido de existir, fazer como tempo e espaço decorrido e verbos que indicam fenômenos da natureza.

Exemplo de sujeito simples com o sujeito deslocado para o fim:

Ao longe vai distante a mulher amada.
E nos amargos dias fogem as lembranças (dístico meu)


Há também os sujeitos simples chamados elípticos ou ocultos, são aqueles sujeitos que podem ser deduzidos pela desinência verbal, como ocorre nesses entrechos do poema Adiamento de Álvaro de Campos:

photo by Valeriana Solaris on Flickr
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...   
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,   
E assim será possível; mas hoje não...   
Não, hoje nada; hoje não posso.  
 (...)
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;   
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...   
Tenho vontade de chorar,   
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...  
(...)

No poema acima de Álvaro de Campos, qual é o sujeito de levarei, posso, sentar-me-ei, conquistarei e tenho? É o sujeito "eu" que está oculto, mas que é descoberto pela desinência verbal de 1º pessoa. O leitor entrevê o sujeito poético de primeiro pessoa, falando sobre si e sobre os seus sentimentos, mas esse sujeito está nas entrelinhas do poema, não é declarado, aberto, com um nome ou com um sobrenome.

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